“Somos Todos Migrantes” é um espetáculo comunitário que vai acontecer a 25 de julho, pelas 22h00, na Praça Brandão de Vasconcelos, e cruza teatro, música e vídeo, para refletir sobre a condição humana da migração, numa iniciativa da ADRIMAG, Município de Arouca e Teatro do Bolhão. A entrada é livre.
A partir da memória coletiva do território, o público é desafiado a reviver o espírito da grande evasão de Arouca, no século XX, quando tantos partiram em busca de melhores condições de vida, sobretudo rumo ao Brasil e à França.
Num gesto de evocação também dos povos que foram passando pela região (romanos, árabes, berberes e medievais), o espetáculo revela como o movimento e a deslocação fazem parte da história profunda deste lugar e da própria humanidade.
Entre passado e presente, “Somos Todos Migrantes” integra as cerca de cinco nacionalidades que hoje habitam a vila, explorando as causas, os desejos e as consequências da migração: a esperança de um novo futuro, as dificuldades da integração, os riscos da migração ilegal, a saudade e a distância. Ao mesmo tempo, lança um olhar sobre os anseios das gerações mais jovens e a permanente necessidade humana de partir. Num espaço simbólico de encontro, a praça, constrói-se uma narrativa sensível e plural sobre pertença, identidade e transformação.
Sobre o espetáculo
O espetáculo de Arouca parte de uma pergunta simples, mas profundamente humana: o que nos une, a todos nós, independentemente da nossa origem? A resposta está na experiência universal da migração, essa travessia que, em diferentes épocas e por razões distintas, moldou as histórias das famílias arouquenses e continua a moldar as vidas de quem hoje chega ao concelho à procura de uma vida melhor.
A componente artística está a cargo do Teatro do Bolhão, com direção artística de Miguel Hernandez. A criação do espetáculo é desenvolvida em estreita colaboração com a comunidade local e migrante, num processo participativo que transforma cada ensaio numa experiência de encontro, partilha e crescimento coletivo.
O objetivo é claro: promover a inclusão e integração da população migrante na comunidade local de Arouca, criando um momento de celebração partilhada onde não há protagonistas isolados, mas uma voz coletiva construída por todos.
“Palcos do Mundo – Somos Todos Migrantes” é uma peça de teatro comunitário que viaja no tempo e na memória coletiva de Arouca. Em três movimentos – o passado, o presente e o futuro –, o espetáculo convoca histórias reais e ficcionadas que nos lembram que a mobilidade humana é um traço constitutivo da nossa identidade enquanto povo.
No passado, recordamos a Arouca que viu partir os seus filhos: gerações inteiras que emigraram para França, Alemanha, Brasil, em busca de condições de vida que o território então não conseguia oferecer. No presente, reconhecemos a Arouca que recebe: brasileiros, ucranianos, santomense, cubanos, suíços que aqui encontraram um lugar para construir a sua vida. Histórias de coragem, de adaptação, de línguas que se misturam e de sabores que se partilham à mesa. No futuro, sonhamos com Arouca mais forte precisamente por ser mais diversa: um território onde a comunidade local e a comunidade migrante se reconhecem como parceiras no mesmo projeto de desenvolvimento, construindo juntas uma identidade plural e vibrante.
Os participantes: uma comunidade em cena
Um dos traços mais singulares deste espetáculo é a ausência de um protagonista único. Aqui, todos são protagonistas. O espetáculo é construído com e pela comunidade de Arouca, reunindo num mesmo palco vozes, rostos e talentos muito diversos, migrantes e locais, jovens e adultos, amadores e figuras reconhecidas na vida da vila.
O espetáculo conta com a participação ativa de coletividades e grupos já enraizados na vida cultural de Arouca, entre os quais: grupos corais e coletividades culturais da vila, grupos de teatro amadores; alunos do articulado de música, dança e teatro; grupo de concertinas. Conta também com a participação de figuras bem conhecidas da comunidade arouquense: o Sr. Rouxinol, o Manel, a equipa júnior do FC Arouca e o Sr. Melo, com as suas bandeiras gigantes de apoio ao clube da terra, são algumas delas. São rostos conhecidos que trazem consigo a cumplicidade e o afeto do público, ajudando a criar a atmosfera de celebração partilhada que o projeto ambiciona.
O espetáculo conta com a participação de 13 elementos da comunidade migrante residente no concelho de Arouca (5 de nacionalidade santomense, 5 de nacionalidade ucraniana, 1 de nacionalidade brasileira, 1 de nacionalidade suíça, 1 de nacionalidade cubana), que, de forma voluntária e corajosa, aceitaram expor-se através da arte, um ato que, para muitos, representa ultrapassar barreiras importantes de exposição pública e vulnerabilidade.
Processo de criação do espetáculo: as oficinas de arte
O espetáculo é o resultado visível de um processo de criação coletiva que se desenvolveu ao longo de vários meses, nas Oficinas de Arte, o eixo central e mais transformador de todo o projeto.
As Oficinas de Arte são espaços de expressão, encontro e criação coletiva, onde os participantes partilham histórias e talentos. Nestas sessões, foram trabalhados os elementos fundamentais da linguagem cénica: movimentos, música e expressão artística. Os participantes não são meros executantes de um guião pré-definido, mas cocriadores de um espetáculo que reflete as suas próprias histórias e identidades.
Sobre o projeto “NÓS – Palcos do Mundo”
O “NÓS – Palcos do Mundo” é um projeto de inovação social que nasce de uma convicção profunda: a arte tem o poder de construir pontes onde existem muros, de transformar o desconhecido em familiar e de celebrar a diversidade como um valor coletivo.
Promovido pela ADRIMAG – Associação de Desenvolvimento Rural Integrado das Serras de Montemuro, Arada e Gralheira – em parceria com o Teatro do Bolhão, este projeto encontra-se inserido no âmbito das Parcerias para a Inovação Social, financiado pelo Portugal Inovação Social e pelo NORTE 2030 (Fundo Social Europeu+).
A iniciativa centra-se no processo de inclusão social da comunidade migrante dos municípios de Arouca, Castelo de Paiva e Vale de Cambra, utilizando as artes performativas como principal veículo de integração, capacitação pessoal e coesão social. Partindo do diagnóstico de que a população migrante neste território enfrenta desafios complexos, desde a discriminação e a segregação habitacional até à exclusão em contexto escolar e laboral, o projeto propõe uma metodologia inovadora que ativa competências pessoais e sociais através da participação em laboratórios artísticos e na produção de espetáculos.
O “NÓS”, cujo nome evoca o pronome pessoal que acolhe e envolve, «um palco onde cabe o mundo inteiro», estrutura-se em três eixos complementares:
- ações de animação e dinamização comunitária;
- sessões de treino de competências pessoais e sociais;
- e as Oficinas de Arte, coração do projeto, onde a música, a dança, o teatro e a expressão plástica se tornam instrumentos de transformação social.
O projeto abrange de forma itinerante os três municípios parceiros, com um espetáculo por ano realizado em cada um deles. Esta itinerância tem um carácter estratégico: cada espetáculo ancora-se na identidade cultural específica do território que o acolhe, envolvendo as suas coletividades, os seus espaços emblemáticos e as suas gentes. Em 2025, o espetáculo decorreu em Vale de Cambra, este ano acontece em Arouca e em 2027 decorrerá em Castelo de Paiva.
O projeto “NÓS – Palcos do Mundo”, beneficia ainda do investimento social de oito entidades parceiras, que revelam o compromisso e a confiança do tecido institucional e empresarial do território com os valores de inclusão e inovação social que o projeto representa. São elas, no setor público, as Câmaras Municipais de Arouca, de Castelo de Paiva e de Vale de Cambra; e no setor privado, a NAUTILUS, Indústria e Comércio de Mobiliário, SA (Castelo de Paiva), a Indulac – Indústrias Lácteas, S.A. (Vale de Cambra), a Carpintaria Moldense, Lda. (Arouca), a Arouconta – Contabilidade e Gestão, Lda. (Arouca), e Adriano de Sousa e Filho, Lda (Arouca). Esta parceria intersectorial, que reúne municípios, empresas locais e entidades de economia social em torno de um objetivo comum, é ela própria uma demonstração prática do que o projeto ambiciona: construir comunidade através do encontro e da partilha.















